sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Título: Gato macho

cena 1

Uma mulher sentada no chão de uma sala branca, encostada na parede, chorando desesperada. Só vemos os pés do homem que a oprime fisicamente. Ele está muito furioso e fala com violência. Não vemos a face, nem sequer o corpo dele, só as pernas, e entre elas o corpo da mulher sentada, encolhida, oprimida, suprimida de si mesma.

DIÁLOGO:

_ Por favor, ele é meu único gatinhooooooo...
_ Eu te disse um milhão de vezes prá se livrar do gato, puta que o pariu!
_ Meu amor, por favor, ele é meu único gatinhoooo, ele está comigo há anos, por favor, não faz isso!
_ Essa merda desse gato mija em mim, mija nas minhas coisas!
_Meu querido, ele é só um gato!
_É, ele é só um gato. Mas tem um monte coisa né? Tem o gato, e ele, vc sabe, ele não gosta de mim, vc sabe, o gato, essa porra de gato, me odeia!
_ Amor, eu fiz de tudo por vc. Eu não ando mais com os meus amigos, eu não saio mais, mas peloamordedeus, meu gatinhoooo, meu gatinhoooo, nãoooo, não faz isso!!!


_Já que vc não se livra do gato, eu vou me livrar. Eu disse prá vc que vc tinha que se livrar. Ele não gosta de mim, eu não gosto dele, e o que vc escolhe? O gato? É isso? Não aceito o gato. É bem simples, eu faço o que tem que ser feito, e vc vai dar fim no que restar do gato. Vai lá, lá na linha do trem e joga o resto. Porra!

Joga um saco plástico preto em cima da mulher, sempre só os pés dele entre o quadro filmado, só se vê a mulher por entre as pernas do homem.

_Meu amor, ele não tem consciência. Meu amor, eu faço qualquer coisa, mas meu gato, meu gatinhoOOOOOO (meio que ela mia quando fala do gatinhoooo)...
_Como vamos ter um filho com esse gato? Como? Me diz? Esse gato quer dormir com vc, quer ficar abraçado com vc, esse gato tem tesão em vc, até o gato quer  te comer, vc nunca vai largar o seu passado de biscate, de puta, vc tinha até orgulho disso, né?

_Meu querido, meu amor, o gato, eu castrei o gato. O gato quer dormir com a gente, não, por favor, não, num puxa ele, ele é só um gato, um gato pequeno, um gatinhooooooo. Por favor, meu amooooooooooooooooor, eu não tenho nada, deixa meu gatinhooo comigo.
_Eu disse pra vc se livrar do gato! Eu te avisei, vc tinha que se livrar de dele, te dei um prazo, e vc teimosa, deu fim nele? Não, então eu dou cabo dele, ué!
_Eu não posso, eu não quero, é o meu gato. (um pouco menos frágil)


_Vc não quer, é claro que vc não quer, vc tem coragem, a coragem de me dizer que prefere um gato, uma porra de um gato, gato vira-lata a sua família, a seu futuro, você vai ter uma família de verdade, meu amor. Eu to te dando tudo, T U D O! Eu dirijo prá vc, eu vou ao banco com vc, eu almoço com vc, e quem dorme com vc? A merda desse gato! Vc podia ter dado embora esse animal! Vc podia ter largado essa besta em qualquer lugar. Mas não, vc não quer ver a gente bem, ver a gente feliz, então, se vc quer ficar comigo, eu mesmo mato o gato. Ou vc não quer ficar comigo? É isso? Vc não quer ficar comigo?

_Eu quero, é claro que eu quero ficar com vc... mas é o meu único, ÚNICO  gatinhoooo...  por favor, eu te imploro, não isso faça comigo! É comigo que vc tá fazendo! Eu num tenho mais nenhum gato prometo...

A mulher dá um grito longo, quase um miado.

_Então, se vc prefere eu (bem nervoso, assim, com esse erro), vc prefere eu, é isso que tá dizendo, né? Eu não quero, eu não prefiro ninguém, só vc. Eu não quero essa merda de gato. PUTAQUEOPARIU!!! VC NÃO VE QUE EU SOU MAIS QUE UM GATO??? POXA, EU SOU MAIS QUE UM GATO PRÁ VC, NÉ? (na dúvida) EU SÓ ESTOU TE PEDINDO PRÁ SE DESFAZER DO GATO! NÃO TO PEDINDO MUITO. (se acalma um pouco) Amor, sua mãe, ela é,  olha, (ri em cumplicidade) ela é difícil amor... Eu aceito tudo, seu irmão retardado, seu pai alcoólatra, (mais fofo) meu amor, minha linda, é só um gatinho, ele pode ter outro lar se vc quiser... é só um gato, não sou eu, não é o amor da sua vida....

_É o meu gatinhoooo... ele tá comigo faz 4, 5 anos... é um bom tempo... a gente tá junto faz menos que isso. Não desculpa, não quis dizer isso, eu quis dizer que...

Homem em tom doce:

_Eu entendo vc, minha linda, numa boa. Vc tem um coração enorme. Mas olha só, me escute: Eu te amo. Eu quero construir uma família com vc. Eu quero te dar um nome, uma casa, um lar, um teto todo seu, a sua casa, prá ser sua, prá vc cuidar. É só um gatinho. Depois que a gente tiver nosso filho, nosso filho homem, a gente pode ter outro gato, até se vc quiser. Vc vai ser mãe de um garoto. Ou cachorro, tb pode ser, prá não ficar trauma de gato, ou, eu sou tolerante, outro gato. Mas agora, já, o gato atrapalha a gente. E por quê? Porque o gato me detesta. Ele mija nas minhas coisas. Mijou dentro do meu melhor sapato, antes da reunião. Meu sapato de couro, meu melhor sapato! Eu fui como, eu fui de tênis! Tênis prá ser executivo de negócios, amor? Você não quer me ver feliz, realizando nosso sonho?  Meu amor, minha linda, vc sabe, a gente é mais importante do que ter um bicho.
_ Gato, meu gato, meu amor, eu não posso aceitar vc matar meu gato, por favor...
_Então eu não mato, já disse, eu bem que queria, porque prá mim um gato num vale nada, é só mais um gato, mas, meu amor, se prá vc é tão importante assim esse gato, esse filhadaputa (ri, um pouco mais alterado), a gente doa ele, tá bom assim, querida, eu volto atrás, a gente doa ele.
_Não, não, não, não faz isso comigo. A gente nem mora junto, meu gatinho, meu único gatinhooooo, meu único bichinho de toda vida. Vc sabe, eu te disse, eu nunca tive ninguém, nem um bichinho. Minha família, vc sabe... Amor, vc estudou, vc é um homem que fez faculdade!!! Puxa, vc fez faculdade, como vc pode querer que eu, eu nem consigo falar, vc me disse, que eu... eu devia, amor, eu devia matar e  jogar ele, meu gatinhoooo, jogar no trilho do trem, ou ainda, que  eu mande embora meu gato? Eu não posso mandar ele embora, ele quis ficar comigo, ele apareceu aqui em casa, eu não pedi, ele quis ficar comigo...
_E eu? Eu também aceitei ficar com vc...
_Mas é diferente!
_É diferente? É diferente por quê? O gato faz as suas coisas por vc? Ele dirige, de novo vou te dizer, ele te leva até a casa da sua mãe lá no fim do mundo? É, é diferente (irônico), vc tem que entender, eu sou gente, eu sou muito mais do que a porra do gato. Ah, merda, to de saco cheio, eu quero esse gato morto, enterrado, quero ele lá mesmo onde eu te disse, no trilho, no trilho do trem onde jogam os cadávers (assim), onde desovam os gatos, os cachorros... a merda toda! Que porra, mulher, vc não sente? Não sente o cheiro do mijo do gato? Olha isso... (grande respiração) olha o cheiro da sua casa! Eu sei, eu acredito, eu vejo vc limpar a casa, a sua e a minha casa também, sempre vc deixa tudo limpinho, mas o gato emporcalha tudo, com esse fedô de mijo! Vc é mulher limpinha...(doce... quase fraternal), eu acredito que vc é limpa, assedada, mas olha esse cheiro, e ainda, apesar do seu passado, outroS namoradoS, não foi um só, né?...
_(Ainda o homem mas, mais nervoso) Mas que merda de gato do caralho, gato que tem tesão em mulher, que porra é essa? Eu vi, eu num sou um idiota, eu estudei, vc sabe, eu conheço, eu sei que é possível o animal ter tesão, sabe, tesão tipo quer te comer mesmo, só que ele não pode, mas, assim, chama zoofilia, a merda, a cagada que vc faz com o gato! A merda que vc fez com o gato, que vc faz, é isso é zoofilia, já ouviu falar? Pois é, é isso que vc tem com o gato. É essa a sua doença... amor, eu to te ajudando a não ser doente, vc é louca por acaso? Como seu irmão, seu pai, vc não quer ser doente? Quer? Quer ser mulher de um... risos... gato? Quer ?
_Eu... eu nem tenho o que dizer, como... por favor, eu não tenho nada, é até absurdo, ele é só um gato, é só o meu gato, o meu gatinhooooo... meu amor, de novo, eu te amo, eu num tenho esse amor no gato, esse tipo de amor. Eu tenho outro tipo de amor, amor de bicho... eu não tenho esse amor...
_ Se não tem, é simples: é só se livrar do gato. Minha mãe sempre disse, gato é bicho traiçoeiro! (olha o édipo!!!)
_Esse num é, ele veio aqui ficar aqui comigo, ele precisava de comida. Ele me pediu uma casa, ele só queria ser de casa, é gato de madame, e é só um...
_ (bem alterado) Pára! Pára, eu já disse! Eu não aguento mais ouvir essa merda, essa nojeira, essa porcaria. A gente decidiu, lembra? Tudo que for do passado, já acabou. SeuS outroS homenS, que  você já teve mais de um, outros bichos, outras merdas que vc fez, que vc SÒ fez merda, e a maior esse merda desse gato.  Mato ele e jogo no trilho do trem. Fim de papo! Chega não quero te ouvir mais. Acabou o gato! (mais nervoso)
_Não, querido, eu te amo, mas o gato não acabou. Nunca eu acabo com meu gato. Nunca...
_Então eu acabo! Quer ver? Você, já que não quer dar ele, quer ver? Eu mesmo acabo com o gato! EU MESMO ACABO COM A PORRA DO GATO! EU QUERO VER DEPOIS QUE NÃO TIVER MAIS GATO VC PEDIR DE JOELHOS O MEU AMOR, PORQUE É ISSO OU EU, OU O GATO, GATO MACHO, EU ACABO COM ESSA MERDA, ESSA NOJEIRA DE GATO!!!!

Ela levanta de sobressalto e pula sobre a frente onde o homem, ou melhor, pula sobre as botas...

Cena 2

Mulher anda pelos trilhos do trem
take nas pernas, nos pés dela.
Ela anda um tanto.
A câmera levanta.
Ela tem um saco preto.
Ela caminha segura, quase que feliz, loucamente feliz. Ela chacoalha o saco preto.

Take de frente, ela ri. Ela balança o saco preto e ri, enlouquecida.
por favor senhores fantasmas: eu peço há anos: vão embora! e se vocês forem, será que vivo sem vocês?

tem o menino que era pequeno.
e toda família dele.
tem.
tem aquela moça no escuro.
tem.
tem aquele filhadaputa daquele cara.
tem.
tem outra moça. não sei direito ela.
tem.
tem a velha. tem o velho. e tem também os pretos.
tem.
tem aquela moça bonita cheia de si. tão cheia que ela aparece na frente dos outros.
tem.
tem um macaco! ora só, veja só.
tem.
que mais tem?
tem uma mulher fraquinha.
tem.
tem gente demais, já, não tem?
tem.

e fora aquelas coisas que não são gente.
tem.

e tem também umas coisas leves e boas, ainda bem que
tem.

ah, deus meu, quanta loucura.

e quando falam?
tem.

e quando gritam em nome dos outros.
tem.
eu nunca senti um índio, mas sei que tem.
tem muita mulher, putamerda, tem.
que droga.
e ainda teve com nome: ana e anativa.
tem.
e com nome teve a lia.
tem.

e tem uma mina louca que quer ser minha filha!
tem.
e tem um menino que diz agora:
eu também só tenho você. eu não me apresentei. vc escolheu dizer essa dor do mundo. me aceite também.
meu nomeé luís, e esse é um bom nome prá dizer que é verdade, é só um nome qualquer.

fui menino, fui santo. me machucaram também.

vingue a gente, vingue a gente. eles gritam: VINGUEM A GENTE!

ok.

putos: os amores que todos nós sofremos eram apenas nossos. não havia direito.





por favor, de novo, vão embora fantasmas.


eu não quero essa loucura.
não vou aceitar de novo morrer com vocês.

os suicidas, todos eles tem.

mas não. não, não, não, não e não mais uma vez.

eu decidi, dessa vez, não tem.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

hoje eu quero escrever. eu quero que suma. eu quero desistir e também não.
fui parada pela polícia, completamente embriagada. O seu moço botou a luz no meu carro. viu minha sacola de feira, minha câmera. olhou prá mim. Eu disse: posso ir embora? Como quem tá triste e implora: seu moço, posso, por favor, pelo amor de quem sofre, ir embora? posso ir prá minha casa? posso ver meus gatos? posso sofrer sozinha? posso parar com essa mania de sentir demais?
sinto demais os outros. é uma bosta. não tem outro jeito de dizer, é uma bosta.
aí é assim, vou explicar: eu nunca vi essa menina na vida. ela reclama, reclama, conta, conta. se apaixona bem rapidinho, quer tudo ao mesmo tempo agora.
e aí?
aí eu vejo.
aí eu sei. eu sei e não tem como negar. tá ali do ladinho. certeza alguém também já vi. ou sentiu. energia forte, poderosa e densa. pesa nos ombros. dói. é horrível. não é meu, mas se apropria de mim de um jeito, puta merda. putaqueOpariu.
vá embora. VÁ EMBORA, agora, por favor?
sabe que eu acho de verdade? eu sou essa bosta. eu podia lutar, eu podia me ver livre, mas eu gosto da merda. eu procuro gente merda. gente enfiada no creme de cocô, purinho. se eu ficar, sei lá, com vinte e cinco pessoas, por quem eu vou me apaixonar? me entregar? pelo mais fudido. por quem nem sabe que é isso: cocô. pelo malogrado. pelo triste. pelo desfalido. pelo desiludido de si.
eu pego os pedaços que nem se sabe como isso. pego o resto. escolho o que nem teria coragem de escolher a si próprio. o escarro. o desdém.
será que é só edipiano e eu escolho o desdém porque meu pai me desdenhou? oh papai. fez tão mal, mas tá consertando tudo agora, né? aos... 60 anos. ok. tenho mais 30. e nenhum filho prá reverter as mesquinharias da minha vida. eita, mas que gentinha eu sou.
minha mãe é tão boa que não me dá coragem de ser mãe. nunca serei tão maravilhosa. ahhhh... eu devia ter nascido homem. tenho tudo para isso. inclusive paixões homoreróticas às avessas. conceito moderno. vc ama um homem que te ama, porém, quantos poréns.
eu sou masculina, ativa, violenta, viril, avante! tenho tudo de mulher, sim, tenho. mas o simples fato de não aceitar que haja coisa de mulher e coisa de homem, me faz menos mulher e mais homem. e eu nem quero.
mas quero.
gosto que se submetam a mim. gosto de ser dona da situação. gosto de comer. de penetrar. de fazer doer. ah, por quê isso é de homem?
demorou prá entender a sensação de ser preenchida. preferia entrar em alguém. eu gosto do poder de ser mulher que se entende homem. minha voz grossa. minha mão forte. meu impulso. eu caço, se quiser eu mato. eu sou, também, homem.
os homens. os homens. dos que eu amei, poucos me conheceram.
eu tive medo deles, primeiro, porque sabia, eu não podia consertar carros (oi, épido!), não podia carregar o mesmo peso. não ganharia dinheiro: trabalhar, filha, um burro trabalha, ganhar dinheiro, só inteligentes ganham dinheiro.
e se eu disser que não quero ganhar dinheiro?
e se eu disser que não quero, tampouco, fazer doutorado?
e olha só, nem arte quero fazer?
eu só quero sair de mim, de novo, um pouquinho.
um dia eu tive um sonho. sempre muitos sonhos, mas esse. puxa.
eu via tudo, a terra bem de longe, outros planetas. e daí, eu cheguei. tinha três luas. tinha três luas onde eu estava. era reconfortante. tinha três luas e eu estava ali, olhando para elas.
eu acordei de manhã. papai, e nessa hora é papai mesmo, que nunca dizia coisa que não fosse prática, disse: sonhei que tinha um lugar e três luas.

eu perdi.
eu não sou boa o suficiente e pior, eu sei exatamente o que é ser isso.
porque me disseram.
eu não sou a virgínia, é claro.
seria triste demais prá ela ser eu. essa coisa falida e coitada.
mas eu sei o que é ser nem homem, nem mulher. nunca me senti só uma dessas coisas. eu sempre fui, e sempre serei homem e mulher ao mesmo tempo. mulher que me deixa falar. homem que me deixa agir. me agride. e tem mais. eu sou um homem que ama os homens. e ama as mulheres. não, eu não apenas bi. eu sou multiplo. eu posso dar a um homem a verdadeira essencia do meu ser homem. ... desculpa, eu me odeio.

pausa.
dor.
eu sou uma coisa que não combina.

eu não sou uma artista que desistiu de tudo para ser verdade. eu sou mentira. trabalho oito horas por dia por um salário opressor.

honestamente? não quero filhos, não quero amor. mas eu tive uma mãe, avó,tia maravilhosas e agora não posso fazer nada.

se fosse só ódio seria simples.

eu vejo o estupro que deixei fazerem comigo. em prol da loucura. em prol de esquecer, de não existir. o que eu queria esquecer, já tão nova?

eu pensava: sou toda errada, faço tudo des-certo. nunca conseguirei, Lia. Depois outros nomes. muitas pessoas inexistentes passaram na minha vida.

e o que, na prática, posso tirar disso tudo?
1) escolhi ser viciada;
2) escolhi ser sofrida;
3) escolhi ser mal amada;
4) escolhi ter esperança, e essa quarta é a desgraça de minha vida. Porque nega todas as outras e me faz ser apenas um eterno




                                      CÍRCULO

Para outro dia:
SOBRE O ETERNO CÍRCULO

domingo, 6 de outubro de 2013

E agora, no momento em que decidir criar esse diário da guerra.
Cheia de sofrimento, auto piedade e comiseração. Os olhos repletos de água e dor. Vontade de pular todos os dias que virão e cair direto no momento em que não lembrarei mais daqui, do lugar em que estou.
Hoje foi um dia de retrocessos. De vontades de voltares. De não aceitação. 

São as fases do luto do amor que tem que morrer. E que eu não quero que morra. É a UTI.

Essa sou eu, que eu quero criar, já no dia 2.
Confiante, desbravando feliz, todas as possibilidades criativas que a vida me permite. Recuperada, olhando para o fim lá em baixo, sem sentir nada, nem dor, nem desprezo.
Essa porém, sou eu mais real. Acreditando que tudo vai ficar bem. E sabendo que agora não. Não está ainda. Os olhos estão inchados, mas já acredito que a dor vai ter um fim. Entretanto, te amo demais.


Primeiro dia sem você. Dia do fim. Sem cortes, sem edições. Sem você.

Por dor compartilhada, ou não sei... minha amiga tirou essa foto de mim. Resolvi seguir.
Todos os dias registrarei o processo de deixar você.
Dia 04 de outubro de 2013. Nos expulsamos aos berros um da vida do outro. Nos ofendemos, nos desconfiamos. Ao final foi isso o que restou de mim: uma cara triste chorando na frente do computador.
Você me disse que em 6 meses não restará lembrança minha em sua vida.
Bom, eu não estou nesse barco pela primeira vez. Eu não sei o que o tempo e a cura me reservam. Serão 3 meses? 2 semanas. 1 ano? Muito menos ou muito mais? Que exatidão podemos prever?
...
O que sei é que nunca mais contaremos o tempo entre nós. Hoje são muitas lágrimas que descem. Maiores e mais inchadas que as que virão.
Farei uma aposta em silêncio, quem morre primeiro: o amor ou a dor?
Por ora, o que tenho é um caroço no lugar do coração.



Esses eramos eu e você.
Por dois anos, fomos as vezes mais eu, as vezes mais você.
Agora serei apenas eu. 
Vou registrar todos os dias que se passarão depois de você.
Até que não haja mais você.
Quando eu serei, somente, totalmente eu.


Para você se lembrar de mim, uma banda que você me apresentou.