quinta-feira, 10 de outubro de 2013

hoje eu quero escrever. eu quero que suma. eu quero desistir e também não.
fui parada pela polícia, completamente embriagada. O seu moço botou a luz no meu carro. viu minha sacola de feira, minha câmera. olhou prá mim. Eu disse: posso ir embora? Como quem tá triste e implora: seu moço, posso, por favor, pelo amor de quem sofre, ir embora? posso ir prá minha casa? posso ver meus gatos? posso sofrer sozinha? posso parar com essa mania de sentir demais?
sinto demais os outros. é uma bosta. não tem outro jeito de dizer, é uma bosta.
aí é assim, vou explicar: eu nunca vi essa menina na vida. ela reclama, reclama, conta, conta. se apaixona bem rapidinho, quer tudo ao mesmo tempo agora.
e aí?
aí eu vejo.
aí eu sei. eu sei e não tem como negar. tá ali do ladinho. certeza alguém também já vi. ou sentiu. energia forte, poderosa e densa. pesa nos ombros. dói. é horrível. não é meu, mas se apropria de mim de um jeito, puta merda. putaqueOpariu.
vá embora. VÁ EMBORA, agora, por favor?
sabe que eu acho de verdade? eu sou essa bosta. eu podia lutar, eu podia me ver livre, mas eu gosto da merda. eu procuro gente merda. gente enfiada no creme de cocô, purinho. se eu ficar, sei lá, com vinte e cinco pessoas, por quem eu vou me apaixonar? me entregar? pelo mais fudido. por quem nem sabe que é isso: cocô. pelo malogrado. pelo triste. pelo desfalido. pelo desiludido de si.
eu pego os pedaços que nem se sabe como isso. pego o resto. escolho o que nem teria coragem de escolher a si próprio. o escarro. o desdém.
será que é só edipiano e eu escolho o desdém porque meu pai me desdenhou? oh papai. fez tão mal, mas tá consertando tudo agora, né? aos... 60 anos. ok. tenho mais 30. e nenhum filho prá reverter as mesquinharias da minha vida. eita, mas que gentinha eu sou.
minha mãe é tão boa que não me dá coragem de ser mãe. nunca serei tão maravilhosa. ahhhh... eu devia ter nascido homem. tenho tudo para isso. inclusive paixões homoreróticas às avessas. conceito moderno. vc ama um homem que te ama, porém, quantos poréns.
eu sou masculina, ativa, violenta, viril, avante! tenho tudo de mulher, sim, tenho. mas o simples fato de não aceitar que haja coisa de mulher e coisa de homem, me faz menos mulher e mais homem. e eu nem quero.
mas quero.
gosto que se submetam a mim. gosto de ser dona da situação. gosto de comer. de penetrar. de fazer doer. ah, por quê isso é de homem?
demorou prá entender a sensação de ser preenchida. preferia entrar em alguém. eu gosto do poder de ser mulher que se entende homem. minha voz grossa. minha mão forte. meu impulso. eu caço, se quiser eu mato. eu sou, também, homem.
os homens. os homens. dos que eu amei, poucos me conheceram.
eu tive medo deles, primeiro, porque sabia, eu não podia consertar carros (oi, épido!), não podia carregar o mesmo peso. não ganharia dinheiro: trabalhar, filha, um burro trabalha, ganhar dinheiro, só inteligentes ganham dinheiro.
e se eu disser que não quero ganhar dinheiro?
e se eu disser que não quero, tampouco, fazer doutorado?
e olha só, nem arte quero fazer?
eu só quero sair de mim, de novo, um pouquinho.
um dia eu tive um sonho. sempre muitos sonhos, mas esse. puxa.
eu via tudo, a terra bem de longe, outros planetas. e daí, eu cheguei. tinha três luas. tinha três luas onde eu estava. era reconfortante. tinha três luas e eu estava ali, olhando para elas.
eu acordei de manhã. papai, e nessa hora é papai mesmo, que nunca dizia coisa que não fosse prática, disse: sonhei que tinha um lugar e três luas.

eu perdi.
eu não sou boa o suficiente e pior, eu sei exatamente o que é ser isso.
porque me disseram.
eu não sou a virgínia, é claro.
seria triste demais prá ela ser eu. essa coisa falida e coitada.
mas eu sei o que é ser nem homem, nem mulher. nunca me senti só uma dessas coisas. eu sempre fui, e sempre serei homem e mulher ao mesmo tempo. mulher que me deixa falar. homem que me deixa agir. me agride. e tem mais. eu sou um homem que ama os homens. e ama as mulheres. não, eu não apenas bi. eu sou multiplo. eu posso dar a um homem a verdadeira essencia do meu ser homem. ... desculpa, eu me odeio.

pausa.
dor.
eu sou uma coisa que não combina.

eu não sou uma artista que desistiu de tudo para ser verdade. eu sou mentira. trabalho oito horas por dia por um salário opressor.

honestamente? não quero filhos, não quero amor. mas eu tive uma mãe, avó,tia maravilhosas e agora não posso fazer nada.

se fosse só ódio seria simples.

eu vejo o estupro que deixei fazerem comigo. em prol da loucura. em prol de esquecer, de não existir. o que eu queria esquecer, já tão nova?

eu pensava: sou toda errada, faço tudo des-certo. nunca conseguirei, Lia. Depois outros nomes. muitas pessoas inexistentes passaram na minha vida.

e o que, na prática, posso tirar disso tudo?
1) escolhi ser viciada;
2) escolhi ser sofrida;
3) escolhi ser mal amada;
4) escolhi ter esperança, e essa quarta é a desgraça de minha vida. Porque nega todas as outras e me faz ser apenas um eterno




                                      CÍRCULO

Para outro dia:
SOBRE O ETERNO CÍRCULO

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